quarta-feira, 15 de outubro de 2008

This bird has flown

Zé Bocó tinha chegado na cidade. Achava que nunca iria pôr o pé alí, mas lá estava ele no hotel. Cama grande e confortável, um ar condicionado mais moderno do que ele já tinha visto. 'Coisa de hotel', pensou ele. A TV acoplada na parede, uma espécie de escrivaninha perto da janela, uma poltrona meio bege e a cortina de um lado ao outro da janela. Por um momento, Zé Bocó fitou a cortina com uma ânsia monstruosa de abrí-la. Abriu! Um sentimento nostálgico invadiu seu dito coração. Ele estava lá olhando da janela a rua com quase nenhum movimento. 'Um ano... passou rápido', pensou ele. Zé Bocó pensava no que ela estaria fazendo naquela hora, naquela noite. 'Estudando? Lendo? Ela adora livros... ou quem sabe ouvindo música...', relembrava Zé Bocó do alto de sua estúpida e injustificável nostalgia. Não há motivos para lembrar, relembrar ou seja o que for. 'Antes houvesse alguma oportunidade...', não, ele não a veria nesses dois dias e ela muito menos iria imaginar que Zé Bocó estava lá. Quanta idiotice ele pensava. Prováveis encontros... é o tipo de coisa que ele pensava quando era bocó, mas por ela. 'Não... não sou bocó mais... não mais eu acho... certeza...'. Zé Bocó sai do quarto, desce pelo elevador, deixa a chave na portaria e aventura-se pela rua. Havia um shopping do outro lado da rua, pela janela podia vê-lo. As lojas todas fechadas, muitas pessoas indo embora e Zé Bocó tinha o olhar atento para cada um que passava ou iria passar. Subiu até o último andar, sentou-se em uma mesa e ficou olhando as pessoas. Muitas comendo, outras sorrindo... sorrindo. Zé Bocó não sorria mais, apenas contraía os músculos faciais alargando a boca para aparecer os dentes. Zé Bocó, o limão mais azedo e descartado voltava agora para o hotel. Pegou as chaves na portaria, subiu pelo elevador, entrou no quarto... e foi até a janela. Era uma bela noite. 'Ela provavelmente está dormindo agora.' Pensou Zé Bocó, o nostálgico otimista que jurava poder encontrá-la no shopping. 'Maluco...', era a sua definição. Zé Bocó fecha a cortina como quem já está condenado e sabe que vai à forca de qualquer maneira. Ela não voltará. 'Boa noite...', disse Zé Bocó antes de apagar a luz e mergulhar no sono.

quinta-feira, 9 de outubro de 2008

For no One

Haverá momentos em que todas as coisas que ela lhe disse vão encher sua cabeça, você não a esquecerá.

sábado, 27 de setembro de 2008

There she goes...

Cai a chuva na janela enquanto vejo ela partir.
A distância é maior do que eu posso existir.

Quantos dias, quantas noites já passaram no olhar?
Tresloucado pela rua sigo a te procurar.

Suas palavras tão sinceras eu procuro abraçar,
Todos os sonhos e mentiras que elas julgam entregar.

E se não há mais nada a fazer eu fico aqui,
Enquanto a vida passa e o amor vem me iludir.

Eu deixarei que morra em mim o meu desejo de te amar.
Mas os meus olhos, mesmo assim, ainda querem te encontrar.

segunda-feira, 22 de setembro de 2008

Samba do Grande Amor

Tinha cá pra mim
Que agora sim
Eu vivia enfim o grande amor
Mentira
Me atirei assim
De trampolim
Fui até o fim um amador
Passava um verão
A água e pão
Dava o meu quinhão pro grande amor
Mentira
Eu botava a mão
No fogo então
Com meu coração de fiador

Fui muito fiel
Comprei anel
Botei no papel o grande amor
Mentira
Reservei hotel
Sarapatel
E lua-de-mel em Salvador
Fui rezar na Sé
Pra São José
Que eu levava fé no grande amor
Mentira
Fiz promessa até
Pra Oxumaré
De subir a pé o Redentor

Hoje eu tenho apenas uma pedra no meu peito
Exijo respeito, não sou mais um sonhador
Chego a mudar de calçada
Quando aparece uma flor
E dou risada do grande amor
Mentira

sábado, 20 de setembro de 2008

Why does it always rain on me?

Eu devia ter sido sociopata-psicopata-psicótico.
Devia ter usado todas as drogas que existem,
Bebido tudo o que me convêm, caído onde bem entender,
Devia ter comido todas, pego todas as doenças possíveis;
Devia ter cuspido, humilhado, pisado, gargalhado, estraçalhado,
Golpeado, esfaqueado, traído.
Devia ter pego o carro no meio da noite,
Devia tê-lo enfiado no primeiro poste.
Devia ser preso por matar, roubar.
Devia ser grosso, estúpido, intransigente,
Nefasto, falso, cruel com todos.
Devia fazer o que quiser.
Devia ter feito...

sexta-feira, 12 de setembro de 2008

Norwegian Wood...

O passado bate à porta como uma criança pedindo doces. O olhar cativante, a cabeça inclinada com um sorriso leve nos lábios. Doces ou travessuras? Mal sabe a criança que, antes de chegar na porta, o caminho foi longo e desgastante. Medo? Talvez. Os sentimentos do ano anterior eram fortes, tinham vontade, garra, perseverança, força para encarar a dificuldade, seja ela qual fosse. Mas tiveram de ser abortados. Parar no meio do caminho. E agora? É, a festa acabou. Restava ir para casa chorar ou outra coisa qualquer para substituir o que não podia mais sentir-se. Que vazio repentino. Que dor maldita. O Dono da Porta se sentia feio, sujo. Não merecia brincar de ser feliz com a criança. Não merecia ser feliz com nada. E quando ele mais sentiu que merecia, lhe foi tirado da noite pro dia. Quando o Dono da Porta passou a acreditar que o otimismo realmente trazia coisas boas, a tristeza voltou da curtíssima viagem de férias, abriu a geladeira, pegou uma bebida, e sentou-se no sofá. O passado bate à porta como uma criança pedindo doces. O Dono da Porta a observa com um sorriso tímido. Os olhos brilhando, as lágrimas querendo sair. A criança se vai, feliz. O Dono da Porta fecha a porta com um sorriso. A tristeza pediu mais uma bebida e ele foi buscá-la. Mal sabe a criança...

sábado, 16 de agosto de 2008

Nada Com Tudo

Ouço cores sonoras
Vibrantes e formosas.
Aveludadas em seu paladar,
Nuas a me encarar.

Cores sussurradas ao enxergar.
Gigantescas lascas de paladar
A me encarar formosas e
Sonoras e nuas e aveludadas.

Ouço paladares de cores nuas.
Paixão.

domingo, 4 de maio de 2008

Shiver

É engraçado. Hoje me dei conta que as pessoas que julgo certas, não me enxergam como eu gostaria. As que não julgo nem certas nem erradas, me enxergam como eu gostaria que as que julgo certo enxergassem. Porém são as que me machucaram no final. Por Deus, me dá arrepios ao pensar nas pessoas que eu julgaria erradas.

terça-feira, 8 de abril de 2008

How Kind of You...



O carro para e então:

Não sei como dizer. É um pouco complicado. Na verdade muito. Eu gosto de você! Você é maravilhoso. Um homem incrível e carinhoso. Você pega bem demais, cozinha bem demais, conversa, tem um gosto musical maravilhoso. Você foi como o Sol na minha vida, entende? Quando se está com a janela fechada e tudo fica escuro, então entra aquele pequeno raio de luz persistente para iluminar o ambiente; este raio é você. Você foi o amanhecer caloroso de uma noite terrivelmente fria e sozinha. Em cada gota de orvalho da manhã tinha sua voz me desejando bom dia; cada lágrima que derramei você transformou em sorriso; cada sorriso um beijo; cada beijo uma viagem em minh'alma; cada viagem um carinho inesquecível; cada carinho um suspiro; cada suspiro o seu nome; cada nome um desejo de te possuir. Tuas mãos foram minhas com calma. Teu olhar um afago amistoso; teus lábios o caminho da perdição; teu cheiro a loucura; teu toque o arrepio. Você foi na minha vida a última esperança. Você chegou sem me dizer que vinha. Cada minuto que te esperei foi compensado com tua presença.
Mas não te quero, tchau.


O Homem Certo na Hora Errada, meu romance de um único capítulo e única página.

*Alguns fatos são reais, outros mera invenção. A intenção era não deixá-lo com três vergonhosas linhas.*

quinta-feira, 20 de março de 2008

Anything to Say You're Mine.

Oh! amor, grande amor!
Miserável é a chama
De sua eternidade mesquinha
E falso é o seu calor.

Quanto de ti é amor
E quanto será ilusão?
O sorriso amigo inebriando-se em fervor
Torna desgostosa tua feição.

Não, meu bem! Hoje acordei.
Amanhã, quem sabe talvez,
Dilacerar-me-ei por ti
Mais uma vez.