domingo, 1 de junho de 2014

Ao vencedor, as batatas.

Cansei das suas inconstâncias.
Sua necessidade de agredir
E de se sentir por cima
Do que não mais tem importância.

Entrego, assim de mão beijada,
A vitória por você tão almejada.
Saio e deixo contigo o vazio da sua alma
E um mundo repleto de nada.

Não quero sequer as mentiras da sua boca
Ou seus pálidos olhos.
Renuncio toda palavra não dita,
Qualquer sorriso não esboçado.

Deixo contigo o reflexo
Da tua própria babaquice.
Estás livre para cuspir,
Esse sórdido veneno,
Na tua própria cara.
Retiro-me; ainda permitindo
Num acesso de educação,
A dignidade de acenar um adeus.

Ao vencedor, as batatas.
E que delas bom proveito o faça.

quarta-feira, 26 de junho de 2013

Ando pela vida em silêncio,
Uma sombra a esgueirar-se por trás das luzes,
A centelha na escuridão da noite,
O calor perdido há tempos no inverno.
Reino em palácios construídos por ideais
E apodreço nos calabouços da hipocrisia.
A palavra certa no momento oportuno
E o argumento esquecido ao fim da discussão.

sábado, 12 de janeiro de 2013

Até o mais vil, mesquinho e hediondo; até o mais terrível ser humano que possa existir na humanidade gosta de poesia. Caso contrário, simplesmente, não há ser. Não há morte sem vida, não há belo sem feio, não há alma sem angústia.

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

O Poeta

O poeta nas trevas se engrandece.
Alimenta-se da escuridão como
Vermes famintos que empanturram-se
De um fresco cadáver.
Sujam os olhos as mãos pútridas de angústia.
Os demônios a espreita conspiram.
O poeta agarra-se ao papel
Feito o abutre que aprecia
O último olho da carcaça.
Com a pálida chama de sua alma
Dos poemas faz-se cinza e fumaça.
Inspirando os versos fumacentos, à carne
Agrega-os como um câncer maldito
E às vestes provê o cheiro acre da insolência.
À cova, consigo, a carne poética.
À existência, regurgitarão os demônios as cinzas.
À eternidade, a fumaça.

sexta-feira, 1 de junho de 2012

O que há em mim é sobretudo cansaço —
Não disto nem daquilo,
Nem sequer de tudo ou de nada:
Cansaço assim mesmo, ele mesmo,
Cansaço.
A sutileza das sensações inúteis,
As paixões violentas por coisa nenhuma,
Os amores intensos por o suposto em alguém,
Essas coisas todas —
Essas e o que falta nelas eternamente —;
Tudo isso faz um cansaço,
Este cansaço,
Cansaço.

Há sem dúvida quem ame o infinito,
Há sem dúvida quem deseje o impossível,
Há sem dúvida quem não queira nada —
Três tipos de idealistas, e eu nenhum deles:
Porque eu amo infinitamente o finito,
Porque eu desejo impossivelmente o possível,
Porque quero tudo, ou um pouco mais, se puder ser,
Ou até se não puder ser...

E o resultado?
Para eles a vida vivida ou sonhada,
Para eles o sonho sonhado ou vivido,
Para eles a média entre tudo e nada, isto é, isto...
Para mim só um grande, um profundo,
E, ah com que felicidade infecundo, cansaço,
Um supremíssimo cansaço,
Íssimo, íssimo, íssimo,
Cansaço...

Álvaro de Campos

quinta-feira, 5 de abril de 2012

João Bobão

João é bobão
E não acredita em destino não.
Tudo com ele só acontece na contra-mão.
E enquanto ele busca ganhar o pão,
Tudo o que queria era um amor são.
Mas ele não acredita nesses clichês não,
De que todo mundo tem a tampa da panela de pressão,
Ou o chinelo que cabe no dedão.
Porque pra ele ou pisa no chão
Ou não tem sentido não.
E se enganar o coração,
Não tem problema não.
Porque de perto ninguém tem noção
De que ele só quer um amor são.

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

Tanto silêncio faço eu...
Não é por egoísmo,
Ou medo de agir,
Ou por não ter o que falar de fato.
Pelo contrário...
Há muito o que dizer.
Mas como expressar
O que se sente?
Com palavras de outrem?
Ou de próprio punho?
Como explicar-te através
Destes tímidos versos
Meu não menos tímido silêncio?

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

It's Not

I keep going round and round on the same old circuit
A wire travels underground to a vacant lot
Where something I can't see interrupts the current
And shrinks the picture down to a tiny dot
And from behind the screen it can look so perfect
But it's not

So here I'm sitting in my car at the same old stoplight
I keep waiting for a change but I don't know what
So red turns into green turning into yellow
But I'm just frozen here on the same old spot
And all I have to do is to press the pedal
But I'm not
No, I'm not

People are tricky, you can't afford to show
Anything risky anything they don't know
The moment you try, you kiss it goodbye

So baby kiss me like a drug like a respirator
And let me fall into the dream of the astronaut
Where I get lost in space that goes on forever
And you make all the rest just an afterthought
And I believe it's you who could make it better
Though it's not
No, it's not
No, it's not

segunda-feira, 8 de junho de 2009

O mar que me envolve...
A onda que me embala...
Somente me levam à você.
E com que felicidade vou!
Encontrar-te deslumbrante
A passear pela areia...
Molhando teus pés no infinito
Azul a desenhar teu caminho.
E eu seguindo-te por entre
As pegadas já não mais na areia
Por causa do mar.
Somente teus olhos
A guiar-me...
Até onde nada
Mais haja entre nós
A não ser nós mesmos
E nossos corações.

domingo, 17 de maio de 2009

Coisas Que Nunca Dissemos

Pedaço de incerteza...
Do distante impreciso que me olhas
Estou a sorrir-te.
E em cada verso escrito de bom grado
Continuas a olhar-me,
E eu a sorrir-te.
E no correr das palavras,
Confundem-se teus cabelos
Graciosos por entre elas a desenhar
A melodia do teu ser que,
Por todo o papel, transborda-te
Em um dissonante tom de suavidade;
Dissolvendo tuas cores nas minhas
Por sobre o entardecer...
Ainda a olhar-me...
E eu a sorrir-te.